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COGUMELOS, CARACÓIS E RAÍZES: A HISTÓRIA DE COMO SUAS ROUPAS GANHARAM COR

Garança, cochonilha, Mauveine; estas palavras podem não ser familiares, mas são nomes de corantes feitos de uma planta, um inseto e um produto químico que moldaram o nosso mundo.nnEmbora o índigo seja indiscutivelmente o corante mais reconhecido – a planta que coloriu as mortalhas do rei Tutancâmon e, mais recentemente, torna o seu jeans azul -, existem dezenas de outros corantes que incitaram o assassinato e o subterfúgio, fizeram e perderam fortunas e transformaram as roupas em um símbolo de status por milhares de anos.nnEm um novo livro que explora a história dos corantes, a autora e designer têxtil Lauren MacDonald entrelaça as histórias e a ciência da cor que datam desde a pré-história até hoje; desde a época do tingimento natural até a moderna produção sintética.nn“Já se passaram (pelo menos) 26 mil anos desde que os humanos começaram a tingir”, escreve a autora. “Seus bisavós (999 gerações passadas) estavam mexendo um tanque borbulhante de tinta… enquanto mamutes peludos e gatos com dentes de sabre vagavam pela terra”. De fato, em 2009, cientistas encontraram fibras de linho tingido com até 34 mil anos de idade em uma caverna nas montanhas do Cáucaso, na ex-república soviética da Geórgia.n Garança nA primeira amostra de corante feito de garança, ou madder, uma planta herbácea com flores vermelho-limão, foi encontrada em uma múmia na remota região autônoma Uigur de Xinjiang, na China, provavelmente uma das últimas áreas colonizadas por humanos.nnDatado de cerca de 300 dC, o Homem Yingpan, a múmia, está envolto em um kaftan de lã escarlate forrado com seda vermelha tingida com garança, em um estilo que sugere influências gregas, persas e chinesas; prova das extensas rotas comerciais que existiam na época.nnnnO processo de tingimento Alizarin na fábrica da Bayer Leverkusen em 1961 / Bayer Archives Leverkusen/Atelier EditionsnnUma fonte comum de corante vermelho que remonta a 4 mil anos, a garança não produz o vermelho mais vermelho (esse prêmio vai para corantes feitos de insetos, incluindo cochonilha e quermes), mas ainda assim levou as empresas têxteis europeias a enviar espiões para a Turquia a partir do século 15, para descobrir os segredos da criação de um vermelho de garança e de cor firme.nnEntretanto, na cidade-estado italiana de Lucca, no século 13, os tintureiros protegiam os seus meios de subsistência com leis ferozes. Se você fosse pego usando um corante vermelho “inferior” feito de raízes como a garança, em vez de insetos esmagados como o quermes, você corria o risco de perder suas economias – ou uma de suas mãos.nnComo muitos corantes, o processo de coloração com garança é demorado, desagradável e perigoso – tornando-o impróprio para quem tem coração fraco (ou narina). De acordo com uma edição de 1871 da revista “Scientific American”, são necessárias 11 etapas para tingir lã com garança.nnMacDonald relata que exige que os fios sejam embebidos em “soda cáustica fraca e depois enxaguados em um rio. Em seguida, o esterco de ovelha é mergulhado em uma solução de soda, misturado com azeite, coado e depois penteado no fio” para eliminar os grumos. “Quanto maior for o pedaço de esterco de ovelha/azeite, maior será a probabilidade de a mistura pegar fogo”.n Mudança radical nNem todos os corantes naturais vêm de plantas. Ao longo dos séculos, muitas cores populares foram feitas a partir de insetos e invertebrados. No ápice do espectro vermelho está a cochonilha, um tom carmesim profundo que MacDonald chama de “o corante vermelho natural de maior prestígio”, feito a partir do inseto parasita de mesmo nome.nnO uso da cochonilha data entre 300 aC e 200 aC; são necessários cerca de 70 mil insetos secos (do tamanho de um “grão de arroz”) para fazer meio quilo de corante em pó – o suficiente para transformar “13 suéteres de lã em um vermelho vivo”.nnNo passado, o roxo também foi produzido a partir de criaturas marinhas, principalmente caracóis murex. Por muito tempo a cor da nobreza e da riqueza, o roxo é um dos corantes naturais mais difíceis de se conseguir.nnJúlio César decretou que só ele poderia usar os melhores exemplares dessa cor. Diz-se que outro imperador romano, o notoriamente devasso Calígula, não gostou quando Ptolomeu, rei da Mauritânia, usou um manto roxo durante uma visita e, segundo o historiador romano Suetônio, mandou matar Ptolomeu.nn nnnnOs resultados de experimentos de tingimento com Mauvein em seda por FE Meyer, 1925. / Flavia Zumbrunn/Atelier EditionsnnInstruções históricas para matizes cobiçados mostram quão audaciosa pode ser a busca pela cor. A receita do Roxo de Plínio, escrita pelo naturalista romano Plínio, o Velho e datada de 77 d.C., exige 160 mil moluscos limpos capturados no Mar Mediterrâneo.n Futuro colorido nO roxo estava presente no início do boom do tingimento moderno. Em 1865, um adolescente inglês chamado William Henry Perkins descobriu acidentalmente um corante sintético em seu laboratório doméstico durante as férias escolares da Páscoa.nnEle chamaria isso de Mauveine, o primeiro corante sintético produzido em massa, um “roxo vibrante de dar água nos olhos” que se tornou a última moda. Perkins era um homem rico aos 21 anos, antes que o roxo saísse de cena com a moda. Incapaz de recriar seu sucesso, Perkins perdeu sua fortuna em pouco mais de uma década.nnOs corantes sintéticos recentes também causaram agitação. Em 2017, cães azuis foram encontrados em um rio em Mumbai, a jusante de uma fábrica de tintas e plásticos (um vídeo dos cães tornou-se viral, em grande parte porque realçava as implicações ambientais dos corantes industriais descartados).nnDiscolorations On Feathers, um livro de amostra da Bayer Company mostrando diferentes tons de rosa / Science History Institute/Atelier EditionsnnMas as preocupações sobre os impactos dos corantes não são novas. O livro conta a história de Friedrich Goppelsröder, um funcionário público do século 19 na Suíça que denunciou o proprietário da fábrica, Johann Jakob Müller-Pack, pelo descarte descuidado de arsênico usado para fazer magenta sintética que estava envenenando a cidade de Basileia através de seu abastecimento de água. Sua campanha levou à proibição do despejo de arsênico.nnProcessos perigosos em fábricas de produtos químicos persistem até hoje e o consumo excessivo é um grande

O QUE É “FAST FASHION” E QUAIS SÃO OS SEUS PROBLEMAS?

Indústria da moda tem apostado no modelo de negócio que se concentra na produção de peças de vestuário em grandes quantidades e o mais rápido possível, em resposta às tendências atuais. Para acompanhar as tendências em constante mudança propagadas por desfiles, influenciadores e modismos frenéticos nas mídias sociais, os conhecedores de moda e os ávidos compradores de roupas podem recorrer rapidamente às opções mais convenientes — e econômicas — disponíveis.nnMuitas vezes, essas opções se tratam de “fast fashion”, moda rápida, em tradução literal. Ofertas de lojas on-line com os seus intermináveis ​​feeds de roupas acessíveis ao bolso e com as tendências do momento, ou de grandes lojas que oferecem um sobretudo até ao joelho a preços promocionais. Embora o chique e barato possa parecer a melhor opção, a indústria de fast fashion faz as roupas serem lançadas em uma escala que é rápida demais até para a maioria dos consumidores acompanhar. Além disso, o material usado nessas roupas ​​podem durar de sete a dez usos antes de ficarem desgastados, de acordo com a plataforma de dados ambientais sem fins lucrativos Earth.org.n Por que fast fashion é tão popular? nFast fashion é um modelo de negócio que se concentra na produção de peças de vestuário em grandes quantidades e o mais rápido possível, em resposta às tendências atuais, segundo a Dra. Preeti Arya, professora assistente de desenvolvimento e marketing têxtil no Fashion Institute of Technology em Nova York.nnO termo foi popularizado pela primeira vez em um artigo do New York Times de 1989 para descrever a primeira inauguração da loja de varejo Zara nos Estados Unidos. O objetivo da marca, de acordo com o Times, era que o desenvolvimento do design e conceito das peças até chegarem no consumidor fosse feito em apenas 15 dias.nnGeralmente, os designs de fast fashion são “dupes” – um termo popular nas redes sociais usado para roupas inspiradas (e, em vários casos, totalmente copiadas) de looks luxuosos feitos por celebridades e criadores de tendências, ou exibidos em passarelas de estilistas de Nova York a Paris.nnO objetivo das marcas e fabricantes é colocar esses designs nas mãos dos consumidores enquanto as roupas ainda estão no auge da popularidade e a preços muito acessíveis.nnEmbora as maiores marcas hoje incluam grandes varejistas físicos com presença on-line, como Zara e H&M, o fast fashion tem permitido cada vez mais que marcas e vendedores exclusivos de varejo on-line assumam o controle — como a Shein, Temu from China, Boohoo, ASOS e PrettyLittleThing e Fashion Nova, entre outros.nnDevido aos seus cronogramas de produção extremamente rápidos – apenas três dias desde o design até a produção pronta para compra para Shein, segundou a Vox – os varejistas on-line podem lançar centenas (se não milhares) de designs em pequenos lotes e ajustar suas taxas de produção, o que Shein argumenta que permite reduzir o desperdício e a superprodução.n Qual é o impacto do fast fashion no mundo? nA indústria da moda é responsável por 10% das emissões globais anuais de carbono, de acordo com estatísticas de um relatório de março de 2023 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).nnO relatório também concluiu que a quantidade de peças de vestuário produzidas hoje duplicou desde os anos 2000 – estimando-se que os consumidores comprem hoje cerca de 60% mais roupas, mas que as usam apenas durante metade do tempo.nnPara manter o preço de produção baixo, as peças de fast fashion são muitas vezes feitas com materiais como o poliéster – uma fibra sintética e barata feita de petróleo, um combustível fóssil não renovável – de acordo com um relatório da Changing Markets Foundation.nnO poliéster pode levar aproximadamente 200 anos para se decompor, de acordo com um relatório de 2016 do Greenpeace.nnnnE a indústria de fast fashion não depende apenas de materiais baratos, mas também depende fortemente de mão-de-obra barata, com aproximadamente 75 milhões de trabalhadores fabris em todo o mundo, com apenas 2% deles ganhando um salário digno, de acordo com a Universidade George Washington.nnAs empresas de vestuário tendem a recorrer a países como a Índia, Bangladesh e Paquistão para fabricar seus produtos.nnAs indústrias se aproveitam de trabalhadores com salários mais baixos nestes países, que muitas vezes trabalham em condições perigosas e, ocasionalmente, permitem a exploração de crianças, de acordo com a Humanium, uma organização internacional dedicada a apoiar os direitos das crianças.nnEm outras palavras, embora os produtos finais possam ser baratos para os consumidores, tanto o ambiente como os trabalhadores que os fabricam estão pagando um custo elevado, disse Beth Osnes, professora de estudos ambientais da Universidade do Colorado e especialista no papel do fast fashion nas mudanças climáticas.nnO fast fashion é responsável por “designs rápidos, fabricação rápida, marketing rápido, varejo rápido – não deixa tempo para considerar necessidades maiores, como ética ou direitos dos trabalhadores”, disse Osnes.nn“O combustível fóssil não está apenas impulsionando o maquinário que cria estas peças de vestuário, mas é literalmente o material a partir do qual estas peças de roupa estão sendo criadas”, ela acrescentou.nnSegundo Aja Barber, escritora e estilista cujo trabalho trata da sustentabilidade e da ética na indústria da moda: “O planeta está em chamas e a verdade é que a indústria da moda ajudou numa porcentagem disso.”n “Moda sustentável” é uma alternativa viável? nModa sustentável é um termo usado para se referir a roupas projetadas e produzidas para serem mais ecológicas, de acordo com a Good on You, uma fonte líder em classificações de sustentabilidade de marcas de moda.nnIsso inclui roupas que utilizam fibras naturais, como algodão, cânhamo, linho, lã e seda, que são mais duráveis, explicou Preeti Arya, do Fashion Institute of Technology.nnNo relatório de 2023 das Nações Unidas, a organização lista a mudança nos padrões de consumo, os investimentos em infraestruturas partilhadas e as melhorias nas práticas ambientais e sociais como prioridades que a indústria da moda precisa estabelecer para tornar seu modelo de negócio mais sustentável ​​– informando os consumidores sobre o seu impacto ambiental, por exemplo, e priorizando a reciclabilidade e materiais de origem local nos projetos.nnEmbora estas mudanças

LEVE E SUSTENTÁVEL, O ALGODÃO VOLTA A GANHAR PRESTÍGIO NA MODA

O ser humano até tenta copiar, mas existem coisas que a natureza faz questão de mostrar que são inimitáveis. O algodão é uma delas. Dificilmente se encontra matéria-prima tão leve e gostosa de se vestir. Remete, em um primeiro momento, a camiseta, moletom e roupas ítimas. Costura o tricoline e o denim, usado em jeans. É natural, versátil, menos propício a causar alergias. É democrático. São infindáveis os adjetivos empregados por quem tece um fio de elogios a esse material que nasce e cresce em árvores.nnOutro atributo é ser sustentável. E é com essa saudável e mistura de benefícios para a moda e o ambiente que o algodão tem sido resgatado – especialmente ante a acelerada expansão dos tecidos sinéticos, cuja cadeia de produção e consumo faz mal à Terra.nnVive-se, portanto, uma boa hora para o algodão, e o Brasil — viva! — assumiu o posto de inédita relevância nesse movimento do bem. Hoje, o insumo responde por 54% dos tecidos utilizados pela indústria têxtil nacional. “Quando comparamos com o mundo, com um índice de 22%, estamos muito à frente”, diz Silmara Ferraresi, diretora de relações institucionais da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). O prestígio é impulsionado por estilistas e grifes — responsáveis pela maior parte do mercado de vestuário brasileiro —, de mãos dadas com o cultivo (o país é o terceiro maior produtor global, autossuficiente na oferta para a indústria de roupas).nnO movimento Sou de Algodão, criado em 2016 para unir todos os agentes da cadeia produtiva, com especial atenção para a colheita, finalmente ganhou tração. E deu-se uma expansão que parecia improvável, dada a popularidade das malhas sinéticas, como o poliéster, que vinha havia anos escanteando a fibra natural.nnA campanha em defesa do material no Brasil ganhou fôlego com a adesão de 1 400 marcas, contemplando varejistas do porte de Renner, C&A e Riachuelo e 67 estilistas, com nomes como Reinaldo Lourenço e Martha Medeiros, que já priorizam a fibra em seus desfiles e vestidos de gala, e João Pimenta, que elevou o algodão ao posto de protagonista na São Paulo Fashion Week. Fora do Brasil há também expansão, como revelam as fotos leves e soltas da modelo Hailey Bieber.nnA explosão de interesse combina com os humores dos novos tempos, em especial com os anseios das novas gerações, que já não compram só por comprar, atentas ao que levam para os armários domésticos. Nessa direção, um outro passo foi a criação do Sou ABR, primeira rede de rastreabilidade em larga escala na cadeia têxtil brasileira. Lendo um QR code nas etiquetas, pode-se saber tudo da peça: a fazenda de colheita, a tecelagem ou a malharia que desenvolveu o tecido e a confecção que cortou e costurou a roupa. Tudo certificado para que haja, no mínimo, 70% da fibra na composição do que se leva no corpo. Há quem ainda desdenhe do algodão — “Tragam os lençóis de seda pois não sou mulher de usar os de algodão”, disse certa vez Marilyn Monroe -, mas é chegada a hora de já não tratá-lo com desdém. É chique, sim.nnFonte: https://veja.abril.com.br/comportamento/leve-e-sustentavel-o-algodao-volta-a-ganhar-prestigio-na-moda/